Um relato da imagem do pensamento no pincel tresponto da caligrafia

“il teatro fuori del teatro.”
Murilo Mendes

“(...) a música começa a se atrofiar
quando se afasta muito da dança;
(...) a poesia começa a se atrofiar
quando se afasta muito da música;
mas isto não quer dizer que toda
a boa música deva ser música de dança
ou toda a poesia, lírica”.
Ezra Pound

A primeira imagem que tenho: um rabisco. Eu na areia e o tempo feio. Areia e eu ali espalhados. Sem demora tomo uma pedra na mão e escorrego, suave, no chão de cimento. Primeiro um círculo, longo, sem vacilo. Me afasto, só um pouco, e volto ao traço de linhas longas, arranhadas com mais força. Daí formo outro círculo. Continuo. E mais outro círculo. Ainda é confuso como as coisas chegam. Se falta música, cantarolo. Atravessada, rompendo cerca, a Búfala; pinta como bússola pra cego, dissonata. O desenho desconhece o silêncio e serelepe crio uma coreografia de pequenos saltos. E tudo vai. Se uma ilha móvel houvesse – e eu ouvisse, ainda que sibilina, chuva: IA! mas nem. E vejo assim: lagartas decoram jardim e transitam como pelúcias sem abraço. Pés, da cal feitos, nuvem permanentes. Mãos heregem colunas pro céu. Avanço, o corpo, entre entulhos: história. Arrasto o rosto cansado. O espelho revela-se sem convite. Imagem não se imagina, mas mais dos pelos gravitam. A lâmina respira sem ferrugem. Penso anãs e flores plurais. Élã enigma pintado à língua. Fosso olha. Ossos abismam. Meta da meta confirma mães: presente é estado de espera. Pianos são jogados da janela. Tristéssera do desejo: o coração pânico. Exu roda amunã e bebe do melaço. Fermenta e melanja farinha no dendê. Bate cabeça no orun montado em formiga saúvando saravá. Tudo é xirê. Aço é forja realizada quando há vontade de explicar a vida com metáfora. E percebo, agora, a entrada do risco luminoso por aquela fenestra desleixada. Luz a manhã. Súbito clichê na cabeça combinando as borboletas: se olhos são janelas de alma, cílios são persianas priscas. Abro molduras proo mundo. Gemo clara. É dia. Gema pura gravurada em cielocianoceano. Ilumino palavras e coisas, descubro: volantes não dirigem destino. Decido vestir de lona: existência. E me aparece uma delícia de caligrafia – penso em mãos escorrendo, dançando esguias, minhas guias nas suas: eu canina, embaraçada, toda. Beleza! Tenho pensado em pintar as unhas com regularidade, daí dá dó de roer. Eu, que não sei pintar, continuo de roída. Mas acerto isso. Vim sim, toda linda, rir com bossa nessa terra. Curiosa, inteira, de me ver toda cabelo e esguiez. Visto tudo de preto agora! Sim... mas gosto de mim com cores também. Elas ficam felizes, muito. De dar vontade apertada de dizer escrito que tenho tudo inventado por aqui. Mas como nada é preciso, deixo um desejo de beijo em você. Beijo de três pontas e três pontos pra não ter fim. Todo dia um início de romance. CONADA!

(( André Capilé ))