ESPAÇO 000 Sandra Sato 
Sandra Sato 

(( sandra alice ))

 "Quando conhecemos Alice? Em que momento de nossa infância ela passa a nos seduzir e guiar? Quando a primeira queda na toca do coelho? Quando a travessia dos espelhos? As aventuras de Alice fazem parte efetiva de nossas experiências. Estamos sempre esbarrando na menina; volta e meia um de seus companheiros deixa uma pista contundente de que nos visitou.

Sandra Sato lembra muito bem quando e como encontrou Alice pela primeira vez. Foi em um livro carregado de afeto, presente que sua mãe recebera quando criança, uma versão, parcial e apaixonada, feita por Monteiro Lobato da obra de Lewis Caroll. Essa primeira leitura, numa edição tão carregada de sentidos extrínsecos à obra, é também bastante significativa da poética desenvolvida por Sandra nos últimos anos. Ela não busca nenhuma Alice original. Muitas são as suas Alices, a partir da que surge nas histórias de Caroll e nos desenhos de John Tenniel: aquela recriada por Lobato, a animada por Walt Disney, a ilustrada por Salvador Dali, a de Arlindo Daibert... Em sua obra plástica e teórica, fruto de extensa pesquisa acadêmica, Sandra faz com que todas essas meninas se reúnam e conversem. Tantas e tantas traduções, em diferentes regimes de signos, só potencializam e expandem a realidade de Alice. Das Alices.

Como o Coelho Branco que atravessa apressado o caminho da menina vitoriana, Alice arrastou Sandra para um território especial da experiência humana, maravilhoso, é certo, mas tão desvalorizado frente ao poderoso Logos. A arte, todos sabemos, enfrentou ao longo dos séculos - como o canto das sereias - um processo de descrédito. “Houve sempre, entre os homens, um esforço pouco nobre para desacreditar as Sereias, acusando-as simplesmente de mentira: mentirosas quando cantavam, enganadoras quando suspiravam, fictícias quando eram tocadas; em suma, inexistentes (...)”[1]. Silenciadas, isoladas por ardis astuciosos no território da irrealidade – ou seja, da ficção – as Sereias não ofereceriam perigo.

Sandra não teve receio de ouvir o canto - e o silêncio - da arte. Esta, ao longo de todo o século passado, buscou perigosamente, correndo sempre o risco de seu próprio aniquilamento, abolir as fronteiras entre arte e vida. Generosa, a arte moderna afirmou-se deste mundo, tão-somente humana, dando sentido à experiência do aqui e agora, reafirmando nossa presença sensível no espaço da vida. Ao longo dos anos, Sandra Sato foi capaz de renovar o encanto inicial pela história de Lewis Caroll, e continua ainda hoje mergulhando na toca do coelho, percorrendo o túnel que conduz, não a um outro mundo, mas a esse mundo em que vivemos, porém, potencializado pela experiência artística; muito mais poético e, assim, mais verdadeiro.

Alice arrastou Sandra Sato para o domínio expandido da arte contemporânea, em que os limites entre as linguagens há muito se extinguiram. A artista trabalha, de modo consciente, a herança duchampiana. Sabe das limitações do papel do sujeito-criador, por isso convoca manufaturas e saberes, agrega autorias. Suas obras solicitam não apenas o olhar – um olhar treinado em paradoxos e enigmas -, mas também um corpo íntegro, auto-reflexivo e em movimento. No espaço da antiga reitoria, somos conduzidos a um território feito de delicadezas, reflexos e transparências ; nos elevamos, nos abaixamos, o peso da gravidade parece atenuado, nada é o que parece ser. A própria galeria, com suas grandes janelas de vidro, confunde interior e exterior e difere do Cubo Branco, paradigma do local de exposição da arte moderna: fechado, idealizado, asséptico. A transparência da galeria é integrada de modo inteligente à obra de Sandra. Logo na entrada, está The Queen of Heart´s Roses (verificar ortografia) que recobre parte do jardim com tule vermelho. Material muito presente na arte contemporânea, o tule permite ver através e parece nos dizer que é impossível isolar os objetos do espaço em que se inserem. O enigma do olhar, ensinou-nos Merleau-Ponty, é a ligação entre as coisas, é o que está entre elas. Vemos cada coisa em seu lugar, justamente porque se eclipsam mutuamente.

O tule vermelho que se derrama como tinta e colore as rosas brancas, faz-se presente no espaço interno da galeria, refletindo-se especialmente na série de obras construídas a partir de globos de vidro. O globo espelhado de The looking glass adventure evoca extensa série de associações – das bolas de cristal das cartomantes à Musa adormecida, de Brancusi. Essencial é que ao nos vermos refletidos, a obra revela a natureza do olhar: só vemos porque nos misturamos àquilo que é visto. Em The White Queen e Tweedledum e Tweedledee, os globos de vidro são transparentes e sugerem proteção, precária e frágil, que se confunde também a uma forma de isolamento. A sensação de delicadeza e fragilidade predomina na maioria das obras realizadas, feitas com materiais tais como porcelana, papel, tecido, vidro, cerâmica e espelho. O mundo de Sandra Alice existe por um triz, mas sua existência desafia a pretensa racionalidade de nosso entorno urbano e a solidez de concreto que nos envolve.

Do conjunto de obras, cabe ressaltar o ‘claro enigma’ de The blue caterpillar. Como afirma o título - e a própria artista o aponta em sua dissertação de mestrado -, trata-se de uma referência direta à Lagarta Azul, personagem principal do capítulo V. A obra, marcada pela transparência, surge de uma combinação entre a Lagarta e o narguilé, objeto exótico utilizado pelo bicho. Construído por módulos, marcado por certo orientalismo, o receptáculo de vidro parece conter vapores, essências, aromas, ou talvez o próprio ar do País das Maravilhas. Colocada sobre uma mesa, cujo tampo circular também é de vidro, a obra sugere um movimento ascendente e confunde-se com o espaço; sua vocação talvez seja de fato volatilizar-se, permitindo-nos assim a posse da chave que guarda em seu interior. Que portas abririam aquela chave?

Eis, certamente, o que nos oferece Sandra Sato em suas obras: enigmas visuais que são a chave preciosa para o universo de Alice. "

Leila Danziger, artista e  professora da UFJF/UERJ

[1] Blanchot, Maurice. O livro por vir; trad. Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 2005, p.7.


(( um inédito de sandra sato, escrito para o catálogo ))

"Sou mais uma vítima do encantamento bizarro de Alice, de Lewis Carroll, esta menina vitoriana que desde o século XIX vem seduzindo de crianças das mais diferentes culturas a físicos, matemáticos, historiadores, estudiosos da mente e do corpo humanos, acadêmicos da literatura. Como todo admirador, também tenho bons pretextos para mergulhar neste universo e dedicar uma atenção especial a este estudo. Tive o privilégio de exercitar minhas primeiras leituras em uma edição de 1945, adaptada por Monteiro Lobato que sequer reunia todos os personagens e aventuras descritas pelo escritor inglês. Esta simplificação de Lobato serviu para instigar a curiosidade de identificar aqueles estranhos seres que ilustravam a capa do livro e que nem mesmo eram citados lá dentro. Depois, ao conhecer os de Alice no país das maravilhas e Através do espelho, o nonsense e o comportamento amoral de Alice e seus interlocutores alimentaram a fantasia daquela leitora até a idade adulta. A curiosidade se transformou em pesquisa de mestrado e desta surgiu a exposição “Leituras de Alice”, minha primeira experiência no idioma das artes visuais. Nem tanto escultura, objeto ou mesmo obra de arte, o que é apresentado aqui é uma espécie de exercício de ilustração, baseada nos textos de Carroll, nos desenhos de John Tenniel – ilustrador escolhido por Carroll – e na versão do artista mineiro Arlindo Daibert, um poeta das imagens. Tal como o reflexo de um espelho, esta série de trabalhos mostra o meu olhar ao mesmo tempo em que, ao ser vista por outros olhos, o altera. A infidelidade especular é bem-vinda e mesmo desejada, já que confirma a sensação inebriante do contato com Alice personagem, criatura que adquiriu vida própria tal a força de sua existência.

Agradeço ao escritor Alberto Manguel pela inspiração para o título “Leituras de Alice”, que serviu “como uma luva” para nomear todo o complexo desta pesquisa: a dissertação, a exposição e esta publicação (o catálogo). Além das horas encantadoras de leitura proporcionadas por dois de seus deliciosos livros. "

Sandra Sato


Fotografias:  KEMPTON VIANNA


TODAS AS PEÇAS SÃO OBJETOS EM TÉCNICA MISTA.

14Dressed in white paper
Do cats eat bats, do cats eat bats? Do bats eat cats?
Drink me!
Eat me!
Insetarium
It's late
Mad tea-party
The blue caterpillar
The Heart Court
The looking glass adventure
The Red Queen
The White Queen
Tweedledum and Tweedledee
Who dreamed?


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