Rio de janeiro, 14 de Maio de 2003
Carta ao Artista, Minha amizade com Ronaldo Couri vem de alguns anos. Os nossos contatos sempre foram um breve desvendar de personalidades cáusticas e observadoramente críticas. Ronaldo é para mim, uma das figuras mais interessantes da cidade de Juiz de Fora. Costumo dizer-lhe que é um dos poucos, raros artistas verdadeiros desta cidade. Não falarei dos outros, verdadeiros ou falsos, bons ou ruins, amigos ou inimigos, poucos ou muitos. O que posso falar de Ronaldo é que sua obra artística me fascina, me desloca, me causa furor, um delicioso terror. Ora, a obra de arte não deve ser apenas obra, mas principalmente arte. Deve desvendar ao homem, sermos necessariamente heideggerianos, a sua qualidade de homem o seu Ser. No contato com a genuína obra de arte, o homem o sujeito homem, descobre-se um ser de pura linguagem, um ser de linguagens. O Substantivo adjetivo, em interrogações, em exclamações. Transforma-se em metáforas e metonímias. A alquimia de Ronaldo nos desvela, sem sermos..., uma apoteose de cores em harmonioso contraste de baixos e altos relevos. Desde as suas primeiras e precípuas colagens, nos idos dos anos 70, este excelente artista plástico vem mostrando e demonstrando a sua força, a sua originalidade na busca incessante de novos caminhos, de novas possibilidades. Hoje, no ano de graça de 2003, Ronaldo novamente surpreende com seus objects trouvés, uma recombinatória inteligente e bela de artefatos descartáveis de uma sociedade subrepticiamente consciente de suas absurdas incoerências discursivas. No meio da sociedade dos objetos descartados e das relações circunstanciais, insiste-se em discursar sobre a paz mundial no universo da guerra civil e da fome, propagandear-se a reciclagem no universo do obsoletismo, falar-se de ducação no universo da burrice massificada. O que Ronaldo faz não é um simples discurso pictoriamente retórico, ele engendra uma feroz ressemantização das informações cotidianas de uma sociedade absurdamente esquizóide. Em seus objetos ele relança em nosso universo aquelas informações, aquelas coisas que não nos interessam mais. É aquela caixa de fósforos ou de ovos, aquela cartela de calmantes ou vitaminas, aquela meia de nylon ou de algodão, aquela bandeja de queijo ou de peixe podre. Tudo isso será repelido, reinterpretado, ressemantizado pelo artista e por sua obra, que no colocarão diante de nós mesmos com um espelho-esperto a interrogar-nos, de forma plácida e cruel: - E agora? Diante de nós mesmos, diante da obra-espelho de Ronaldo somos interrogados por uma compostura sábia, por uma beleza plástica decores e texturas que escondem, no enviesado da verdadeira obra, um questionar crucial cujas apostas já foram feitas. A roleta já está a rodar, esperaremos em vão por essa fortuna, seja ela boa ou má?
Parabéns amigo e artista Ronaldo Couri! Um grande abraço do amigo Ramsés Albertoni
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