(( Sobre o artista ))
Há uma questão existencial. Sempre ataco a tela tentando partir do nada ou de algo muito simples. Tento jogar no quadro meu desejo de pintar. Expressar isso. Mas como revelar pictoricamente o desejo? Sinceramente, quero que a tela se faça sozinha. Que eu obedeça a uma ordem dela. Praticamente metafísica. Mas não é. Está dentro do que existe. Mas não tem forma. Sou ateu. E sempre acho que conseguirei meu resultado a partir de um trabalho incessante em cima da tela. Um transe (não - um trabalho continuo). Impossível não pensar em inconsciente. Mas não quero fazer uma leitura do meu inconsciente para por no quadro. O ato me interessa muito. Como se o ato determinasse a forma. Por muitas vezes, o acho mais interessante que a própria forma. Tento jogar ali não o inconsciente, mas sim o sentimento. De raiva, solidão, nunca paz. Queria dar forma a isso. Solidão pelo gesto. Revolta pela cor. Melancolia pelo traço. Observo-me. Sempre tento estar calado de frente a tela. Como se esperasse ela me dizer o que ela quer. Nunca estou satisfeito. Sempre sinto uma compulsão. Que me faz achar que a pintura nunca tem fim. No começo, dou as primeiras pinceladas, observo primeiro a tela em branco, é como se entrasse em contato com ela. Acho isso muito importante. É uma questão temporal que se repete mais pra frente em outra fase. Como se, agora sim, inconscientemente, escolhêssemos um tema, uma linha, um início, estabelecêssemos um diálogo. A partir disso, começo a pintar. Acho que qualquer cor, um traço inicial. Com o tempo, reparo que um ritmo contínuo, crescente e compulsivo começa a surgir. Uma constância se estabelece. Um percurso. E preciso canalizá-lo. Respeitá-lo e senti-lo para que ele se faça e eu não o perca. E assim, observo. Sempre tenho em mim uma necessidade de formas figurativas, mas sinto q essa rotina, acaba me levando ao abstrato e depois nem a isso. Acho q prevalece a expressão. A forma já não é mais o cerne. É o início para se ter por onde caminhar. Depois a expressão se faz necessária e pungente. Tenho a impressão que não vou acabar nunca. E isso é bom.
Meu tema não está na tela. Está no ato. O ato é o tema. Um ato raivoso. Um ato musical. O que está na obra é o registro, a sobra do ato. Isso é a expressão. A expressão de um ato. Vejo, assim, uma relação com o expressionismo. Resolver o Real no plano da ação. Argan o disse. Porém, meu trabalho não é engajado, não está em diálogo com a política, diretamente. Nesse sentido, me sinto perto de Pollock, que exprime, questões existências, angústias do indivíduo. Bem características a sociedade americana. Meus motivos também são pessoais. São indiretos relacionados com o Real, com o mundo que me cerca, mas expresso o pessoal, o subjetivo.
“Não conheço ópticas mais separadas do que a do artista que observa a elaboração de sua obra (quer dizer, se observa a ele próprio) com o olhar de uma testemunha; e a do artista “que esquece o mundo”: este esquecimento é a essência de qualquer arte monólogo; a arte monólogo assenta no esquecimento, a arte monólogo é a música do esquecimento.” F. Nietzsche. In A Gaia Ciência
Sobre a Pintura
Ainda uso tinta, papel, lápis, pincel. Incomoda-me um pouco tantos trabalhos formatados e aparentemente plastificados. Acredito ser, a tinta, não atraso, e sim construção cultural. Odeio boate. Prefiro Rock n Roll, baquetas, ao invés de dj. O Brasil vive de tinta e cor. Quero poder usá-las, parece-me inesgotável seu fim. Hoje, por outro lado, não consigo diferenciar técnicas. Tinta, pc, photoshop ou papel. Pra mim, a referência, o viés, a discussão, vem do que eu leio, do que eu vejo e procuro. Do que me move ou me inspira. Enxergo Matisse, invejo Ingres e vivo Basquiat. Assim, mesmo na tela do PC, meu trabalho se propõe pictórico.
Desde o ready made, desde o mictório, não existe mais limite. O que existe é a vazão para todos os lados. Inclusive de uma torradeira.
Paradoxalmente, acho a tela linda. É a cama da tinta. A estrutura anos desenvolvida para o pintor se expor, se mostrar. É o espaço vazio. Que só existirá como obra se ele assim o que quiser. Caso contrário, será madeira, prime e pano. O excesso de tecnologia nos faz esquecer a tecnologia da tela. A necessidade do primer - se assim, eu quiser. A iniciação de uma tela, do prime, determinará quanto tempo esse trabalho pode resistir ao tempo.A eternidade da obra é a eternidade da tela. Depois só memória. Me desprendo das técnicas. Não me parecem tão mais necessárias. Claro que qualquer traço será uma técnica, desenvolvida ou não, então, me desfaço das que já existem. Procuro assim, alcançar o inalcançável, o que não foi inventado, nem nunca será,pois assim, acabaria a tensão.
O diálogo é outro. O de exagerar. Carregar. Pintar na necessidade e inquietação de pintar mais. A Pintura, ao contrário da última nota musical, que descansa no tom, sempre pede mais. Nunca há satisfação ao fim de uma tela. Então, para que formato? Terminar o que?! Eu quero exagerar, eu quero me suprir de tudo que a pintura pode me dar e que sinto nunca acabar. Teclar o que?! Quero tinta. E quero aflição. Grandes formatos, pouco limite, o mínimo de regras. Quero poder voltar e dizer que não tem fim, mesmo que assine, mesmo que ela não seja mais nada. Será o eterno retorno pra mim.
A cor não se, e nem me basta, me dê um galão, e espero poder pintar o mundo. Não um mundo de cor, não mais como Matisse, ele já o fez, minha relação com a cor é outra, é de variedade, mutação. De necessidade de mares, de ressacas, de derramar, de rasgar. Espero que elas se façam por si mesmas, apesar de saber que, mesmo "sem-querer", tendo a algo.
E assim, pintar. Ao eterno. A necessidade, ao exagero e ao desapego, porque a obra não termina na tela. Está em mim.
Drope e Çaci (Sobre os vídeos)
Essa série de vídeos é um trabalho conjunto com a vídeo artista, Ciça Lucchesi. Nos conhecemos no Rio e começamos, via internet, ela em Sampa e eu na cidade maravilhosa, a produzir juntos. Eu comecei enviando vídeos crus de pinturas que fazia na parede, algumas registradas nesse Blog.E ela começou a ter idéias de intervir nesses frames. Em uma segunda visita, fizemos a pintura móvel, que ainda tem mais umas duas versões. No começo, preferi não por som, pois quero que esses vídeos sejam pinturas. Depois, fiz um stop motion e mais uma vez, mandei via net para Ciça que editou e mexeu livremente do seu jeito. Modernos e o Galo.
Chegamos a conclusão que dois processos, foram interessantes. O primeiro é que as novas imagens, as feitas no vídeo, as abstratas, são oriundas de pinturas, por isso as chamamos de Pintura com P maiúsculo. São uma integração analógico-virtual com um resultado novo. E a outra questão, é o trabalho ser feito, em sua maior parte, via internet. Estamos separados no campo do Real, mas isso não foi nenhum impedimento para fazermos um trabalho co-autoral. Ciça tem trabalhos como Vj em São Paulo, se apresenta como VJ em shows de músicos independentes da cena paulista e tem um trabalho como designer e videomaker. Eu sou professor do ensino fundamental e Pintor, e claro, carioca. | |