ESPAÇO 000 Nautilus Pompilius
Nautilus Pompilius

(( Uma experiência na superfície (ναυτίλος) ))

Primeiro a água ficou doce, depois vieram os canais e subitamente foi a água que desapareceu. Chegara à superfície.

Nautilus Pompilius Suluensis, filho de Nautilus, da tradicionalíssima família Nautilidae era também comumente chamado de Nauti, ou ainda de Pomp pelos mais íntimos. Quando nasceu, sua mãe costumava lhe dizer que, por apresentar o corpo segmentado em forma de espiral, ele era um dos seres vivos que apresentava a razão áurea em seu desenvolvimento, o chamando assim de Espiral de Ouro.

Nauti começou a fotografar no Paleozóico, em meados do período Ordoviciano, na região sudoeste do oceano pacífico para suprir seus problemas de memória recente. As fotografias permitiam a este cefalópode marinho arcaico a rememoração de suas fantásticas aventuras.

Durante todo o tempo que Nauti passou no fundo do mar suas fotografias não tinham outro significado do que um simples documento para sua própria memória. Por ser um exímio nadador e especializado no nado à jatos de propulsão nosso querido ainda não artista não se dava tempo para apreciar as imagens que produzia pelo simples fato que passava todo seu tempo livre a nadar em alta velocidade. Além da adrenalina proporcionada pela alta velocidade, Nauti gostava também da sensação que sentia no momento em que seu sifúnculo extraía sal da água que estava dentro de uma de suas câmaras e o injetava em seu sangue. Alguns animais de sua classe, Cephalopoda, costumavam dizer que Nauti era viciado, que gostava de se injetar e que não era um animal digno de sua classe, quem dera de sua superclasse. Mas ele não se importava com as infâmias dispersadas sobre sua concha e continuava a fazer o que mais lhe dava prazer: injetar sal no sangue.

Nautilus Pompilius Suluensis foi um seguidor do lema proposto por Timothy Leary: "Turn on, tune in, drop out"!, e ele sempre dizia que por não dispor de um talento fotográfico inerente, como o possui outros cefalópodes, preferia alcançar um outro tipo de visão, uma visão onde o aparelho óptico não fosse o principal meio. Ora, todos sabemos que Nauti não era um cefalópodes comum e diferentemente dos outros ele não possuía uma boa visão, pois apesar de sua estrutura óptica ser altamente desenvolvida ela não possuía lentes. Seu sistema óptico tem apenas um pequeno orifício como objetiva, conhecido hoje como “pinhole lens”.

Mal sabia nosso amigo Nauti que tudo estava prestes a mudar.

Numa bela manha de maré cheia Nauti saiu para nadar. Estava deprimido por alguns motivos que não nos convém saber, mas já que tocamos no assunto, diremos apenas que estava deprimido em razão de uma pequena paixão impossível que ele andara alimentando por uma cefalópode de outra subclasse e que o avassalara há algumas semanas atrás. Nauti movimentava seus noventa tentáculos de forma nunca imaginada antes ao mesmo tempo que seu sifúnculo injetava sal em seu sangue de forma acelerada. Ele poderia estar batendo o recorde mundial de velocidade em águas de média profundidade, mas não existia ali ninguém para registrar essa façanha. Com tanto sal em seu sangue Nauti começou a perder o senso de direção e de repente a água virou doce, vieram os canais e “SPLASH !!!” subitamente foi a água que desapareceu. Nauti tinha chegado à superfície.
Nos primeiros minutos ele não sabia se tudo isso fazia parte de uma experiência cerebral causada por uma overdose de sal ou se ele estava realmente em solo firme. Não demorou muito para que Nauti tivesse a certeza que ele não estava no mar. Sua taxa de sal no sangue baixou e ele começou a sofrer de abstinência. Segundo ele “este foi o pior dia de minha vida, ninguém consegue imaginar o que é a falta de sal para um viciado”. Depois de algumas horas sem sua droga Nauti desmaiou.

Quando ele acordou não acreditou no que estava vendo. Sua capacidade óptica tinha aumentado em milhares de vezes. Suas fotografias tinham muito mais definição. Rapidamente ele compreendeu que não havendo água para entrar em seu sistema óptico – através do pequeno orifício ou “pinhole” , era possível ter uma imagem projetada mais nítida. Ele notou também que sua extrema dificuldade de se movimentar fora da água o permitia admirar as imagens que produzia. A partir deste momento seu vicio tornou-se a imagem. Não mais aquela que ele encontrava na velocidade e no virtual produzido pelo sal, mas essa nova imagem invertida que se registrava depois de atravessar o “pinhole” e que era o reflexo de observação e experimentação.

Hoje, como único gênero vivo de sua família e vivendo em Paris, sua arte reflete sua vida apos ter ultrapassado a superfície, podendo ser considerada como uma compilação de sua visão pós-submarina.



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