ESPAÇO 000 Júlio Polidoro 
Júlio Polidoro 

(( outro sol ))

Júlio Polidoro é um poeta singular. Pode conferir quem achar necessário, mas terá de chegar à sua obra. Ele publicou pela Funalfa Edições, de Juiz de Fora, 'Outro Sol' e, por seu conteúdo, se verificará se tenho ou não razão.

Declarei que Polidoro é 'singular'. Carlos Nejar opina diferentemente, mas não muito distante. Afirma: 'Sua poesia guarda sotaque singular, que determina os que duram, além da vigília'. Enfim, como se vê, o adjetivo comparece também em Nejar.

O conceito se torna mais extenso sobre o poeta de Juiz de Fora: 'Não é um versemaker a mais, que invade e polui ou disfarça este nosso tempo que continua a ser 'de homens partidos', fragmentando-se o poema, por se fragmentar a vida'. É alguém que utiliza o verso e alcança a poesia, com a alavanca que move os sonhos'.

Eis aí. Não precisaria acrescentar nada, a não ser convidar o leitor a testar Polidoro, cujo nome completo é Júlio César Polidoro. Nascido em Juiz de Fora em 1959, é da área administrativa da Universidade Federal de lá. Em tempo hábil, ligou-se ao grupo que editou o folheto 'Abre Alas' e a revista 'd'lira'. Foi pelos anos 80.

Publicou, em 1979, 'Treze poemas essenciais', depois 'Pequenos assaltos', em 1990, e 'Orla dos Signos', em 2001, tendo ainda trabalhos em diversas antologias, no Brasil e fora dele. O que se observa é que seus livros apareceram praticamente de dez em dez anos.

Fernando Fábio Fiorese Furtado, em prefácio, com os quatro efes iniciais do nome, adverte para o aspecto fragmentário e casual com que Júlio Polidoro (que não apreciaria chamar-se 'Júlio César'?) foi construindo sua obra até agora, 'tensionada entre as tentações do inédito e a dispersão do bissexto'.
O prefaciador FFFF cobra um estudo acurado acerca das circunstâncias que determinam que se torne inédito ou bissexto um escritor, um poeta. Permanece um enigma. Se se conseguisse a explicação, talvez se 'pudesse explicar também o contraponto entre o prolífico prosador Pedro e o parcimonioso poeta Nava'.
Embora fragmentada ou fragmentária, a criação de Júlio Polidoro tem nexo e faz sentido. Como os vales que ligam grupos de montanhas ou montanhas que unem os vales. Completam-se, integram-se, preciso descobrir os elos.

'Outro Sol' é assim, como o astro, que brilha todos os dias, separados os espaços do tempo pela noite, mais curta, mais longa, de acordo com a geografia e a estação do ano. Seus versos às vezes são pesados, permitem a palavra bonita mas também a feia, admite o lírico.

Seus poemas têm ou não título. Varia. A Breno Chagas dedicou: 'Você não me conhece./ Nasci no princípio da guerra/ e quando acordei, já era. Você não me conhece./ Os estilhaços são minha linguagem;/ mastigo guerra, vivo guerra, morro guerra./ Você não conhece os estilhaços,/ você não me conhece.'

Às vezes, lembra os românticos do século XIX, como na poesia a Maria M. Carvalho Campaggnacci:
'sim/ amei alguém que foste/ amaste alguém que fui/ um dia _ Depois chuva/ fúria, temporal _ e cartas nunca escritas,/ luar, um prédio ruindo/ ao peso das idades a mesa, os fantasmas/ que adoramos, o vento/ cavando a poeira da mobília _ mas amei alguém que foste/ amaste alguém que fui, um dia'.

Manoel Hygino, Jornalista e escritor. Artigo publicado na edição de 30 de março do jornal Hoje em dia, na coluna que leva o nome do autor

(( a palavra urgente ))

A poesia hoje parece carecer de um suporte teórico que, além de explicá-la, a qualifique. A afinidade pessoal com certa dicção não deve ser o único norteador na análise artística. Os acadêmicos e estudiosos não conseguiram ou não quiseram acompanhar a literatura contemporânea, deixando a especulação por conta de escritores, o que desaguou num imenso hiato, representado pela carência de uma autêntica teoria literária atual. Verdade que avanços ocorreram, hoje não se considera a análise artística objeto puramente científico, mas também metafísico.

Com que então lida o crítico de poesia? Que material é este que vem sendo produzido, que difere tanto das tentativas de renovação conceitual e formal perpetradas após o movimento modernista de 22, como o poema-piada, a poesia concreta, o poema-processo, a poesia práxis, os versos semióticos? Há de fato algo novo sendo produzido no cenário da poesia contemporânea que mereça consideração? São questões ainda sem resposta.

Ao poeta, num campo em que a transgressão é quase uma exigência imposta pelos cânones da cultura, interessa o estudo das tendências já consagradas. Mas como reconhecer um transgressor? Quando é que essa infringência não passa de mera especulação? Há na poesia de Júlio Polidoro sinais desses questionamentos. Reunindo sua produção poética de 1979 a 2003 em um único volume intitulado Outro sol, com o aval da Funalfa Edições e chancela da Nankin Editorial, Polidoro constrói versos enxutos, burilados. Nota-se a evolução do poeta de Treze poemas essenciais, o primeiro livro que integra a antologia até A superfície do abismo, o último.

Há o homem em conflito com seu ambiente, com sua situação, como no poema Anoitece, "Sazonado/ - que verdura é o dia?-/ cão bêbado/ abotoa os cílios/ do crepúsculo", a jornada do tempo, "posso ouvir o realejo/ de memória", "o futuro é essa história/ que não terei/ a quem contar" e desde o início a pequenez do poeta, sua inutilidade frente às urgências da vida, como no poema O símbolo, "o arquiteto/ não contou esse momento/ em que me sinto inexpressivo/ sem forças para clamar/ contra o vazio". Que força tem a poesia em um mundo tão carente de sensibilidade, mais afeito ao mercado que ao lirismo e ao pensamento?

É um grito pertinente e inquiridor que ecoa da poesia de Polidoro, como se constata nesses versos pungentes: "persigo da fala a plena expressão/ da sala nunca aberta o corredor/ que nos conduza ao Verbo sem autor/ e que traduza as coisa do porão", um afronte à palavra que tudo originou, a busca pela construção definitiva, sem ao menos saber se ela é possível.

Júlio não se esquece do ritmo, tentando domar o verbo tanto quanto possível, como lembra Carlos Nejar, na orelha do livro, "domina todos os ritmos com a qualidade silenciosa de se deixar também guiar por eles". É o escritor autêntico, o que conduz os versos, mas também é conduzido. O que retrata e é retratado.

Antes de tudo, Polidoro é um poeta completo, que sabe passear por diversos estilos e que encontrou sua própria voz, um ser humano que compreende a urgência da palavra. E também da vida.

Whisner Fraga, escritor, autor de Coreografia dos danados (Edições Galo Branco, 2002).

 

(( a palavra que se celebra ))

Dentre os autores contemporâneos, Júlio Polidoro, de Juiz de Fora, sobressai com uma poesia bastante diferenciada no panorama da nossa atual produção, que anda um tanto saturada das diluições e das facetas de uma vanguarda tardia.

Sua poesia se nutre da realidade e se constrói a partir de uma arquitetura que demonstra sua inquietação interior e estética em relação ao estar no mundo, na linha de uma reflexão existencialista. Poesia que é também fruto de um sutil influxo subjetivo, sem contudo deixar que certa pulsão intimista se desvie pelos excessos de sentimentalismo. É uma poesia regrada, que desde 1979 vem num crescendo e atestando um processo de elaboração formal seguro, com grande fluência, ritmo e harmonia, visitando temas variados, do lírico ao social.

Todo um fluxo de apreensões e que implica a compreensão sobre a necessidade e o lugar da própria arte poética no mundo, vem agora reunido em seu novo livro "Outro Sol" (Ed.Funalfa/Nankin Editorial). Esta obra, enfeixada por um caprichado projeto gráfico e editorial, colige seus livros anteriores, num mapeamento conceitual que dá a visão de uma poesia meticulosa, tecida dentro do mais refinado padrão, sem estranhezas formais ou peripécias de linguagem.

Desde seu primeiro "Treze poemas essenciais", passando por "Orla dos signos" até "A superfície do abismo", Júlio Polidoro tem buscado celebrar a palavra como fonte plena da comunicação, numa poesia que clama pelo seu lugar num universo cada dia mais deslocado e utilitarista, seduzido pelos fetiches da modernidade e do globalismo. Por isso, o poeta não se constrange em denunciar, sem ser panfletário ou folhetinesco, as mazelas quotidianas e também registrar sua preocupação com o apocalipse em que vivemos ("o futuro é essa história/ que não terei a quem contar"), mas, no fundo, deixando uma fresta para crer na possibilidade do homem, da vida, e finalmente da poesia ("persigo da fala/ a plena expressão") como espelho do modo de ver o mundo, consequentemente catarse, exorcismo, território de reflexão.

Polidoro transita entre a tradição e a vanguarda, mas tem sua própria identidade diccional, algo também sentido nas temáticas. Ressalte-se também em sua artesania um certo apelo ao passado, não como saudosismo passadista, mas com um nítido sentido dialético, de farol ("Às vezes eu me sinto muito bobo/ conservando os costumes de família/ e comprando queijo na mesma padaria/ Às vezes é o provável do poema/ não fosse essa carência que sinto/ ao dizer que sinto/ às vezes." ou "Ah, essa infância/que mora na gente/ e escreve o futuro").

"Outro sol" reúne a bem trabalhada produção poética de Júlio Polidoro, uma arte confeccionada com grande esmero, riqueza semântica e carga metafórica e sintonizada com as angústias e emergência de nosso tempo. É uma coletânea que, sem favor algum, o insere definitivamente numa geração que vem rompendo fronteiras com uma literatura da mais alta voltagem, premiando o leitor com nomes como Luiz Ruffato, Edimilson de Almeida Pereira, Iacyr Anderson de Freitas e Fernando Fábio Fiorese Furtado.


Ronaldo Cagiano, escritor mineiro de Cataguases, vive em Brasília desde 1979.

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A ponte
Deve haver um centro, autor para as monções
Indeciso
Não dissemos tudo
Não há sinal de porto algum
Pequeno ritual doméstico
Perda é contingência
Poema nasce nu
Resíduo
Somos poucos


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