(( Os fios voavam e as bolinhas rolavam... ))
I.
Do escuro, procuraríamos alguma explicação para tal situação. Preencher esse espaço vazio de uma história nunca habitada, dividir os cantos com todas essas caixas.
Com a luz do potinho de cera mal podíamos nos perceber mais do que assombrações enveladas pelos cômodos. Éramos nós, o medo.
Nós e as caixas.
Mais do que isso não podíamos ver.
E quanto algum gesto terceiro nos interrompia vinha ao nosso alcance aquele que se escondia, dentro de todas elas...
Não teríamos a audácia de abri-las.
Os escutávamos surdos.
II.
Não haveria fita adesiva suficiente para vedá-las novamente. Precisávamos nos entender, iniciar um acordo, compartilhar em harmonia todo esse espaço.
Dessa forma as inserimos em nossa vida. Claro, como nos convinha. Quadradas, não podiam escapar ou relutar nossos desígnios. As primeiras seriam transformadas em um balcão na cozinha, gotejando-se diariamente pelo escorredor da louça.
Duas outras teriam a privilegiada tarefa de sustentar a árvore de natal brilhante no hall de entrada.
Não que fosse natal. Era maio, e as noites encurtavam cada vez mais.
Até agora elas estavam quietas. A luz havia chegado e estávamos com as rédeas nas mãos.
III.
Suspeitávamos da paz instaurada.
É no silêncio que nos preocupamos com as gotas. As caixas exerciam uma forte presença.
Todas nossas visitas nos perguntavam e explicávamos que tal seria o único problema da casa: éramos obrigados a suportá-las.
Dentro das gavetas e armários já havíamos encontrado registros passados, objetos pessoais, inúmeros rastros de uma vida que desconhecíamos e tentávamos reconstruir. O que haveria dentro de tantos blocos de papelão?
Havíamos aberto uma, uma vez, quando nos primeiros dias, precisávamos de copos e sal. Abrimos uma caixa na qual estava escrito ‘cozinha’ (uma das poucas rotuladas), desembrulhamos a enorme quantidade de folhas vegetais brancas e, encontramos uma caneca e um saleiro.
Não procuramos mais.
Colocamos tudo de volta, vedamos e, nunca mais abrimos.
IV.
« Et les choses ne sont jamais les mêmes... »
O tempo rolava e a estagnação das caixas nos inquietava. Picotando instantes de entre-olhos, elas nos pareciam lá, sempre as mesmas, mortas ou suspensas, em uma latência oculta e profundamente intrigante.
Foi quando eu vi as fitas.
A princípio fora uma apenas, não dera atenção. No dia seguinte outras, caídas no chão da sala, ainda portando o grude do recém colado.
Estariam elas liberando-se? Aquelas fracas fitas conteriam por apenas mais alguns dias a energia acumulada em uma delas? E o que faríamos se, após um longo aprisionamento, nos encontrássemos como os únicos e possíveis culpados?
V.
Passados alguns dias sem sinais, sem novas manifestações relacionadas, começávamos a nos inquietar com outro fenômeno, já percebido e desdenhado desde o primeiro dia.
Cabelos brotavam por toda a casa.
Fios são normais, perdem-se naturalmente, de todos nossos vários amigos de cabelos longos, nada deveria ser menos preocupante.
Mas a diversidade dos lugares onde os encontrávamos era absurda. Dentro de armários, gavetas, pelo chão, junto às roupas e aos utensílios de cozinha. Até então apenas reclamávamos.
Passamos a nos assustar quando descobrimos alguns fios dentro do aparelho de microondas.
Eu tinha cabelos curtos, minha amiga, loiros, e os perdidos eram, longos e negros.
VI.
Não associávamos diretamente os fios às caixas, mas era como uma acumulação emocional.
O infindável interior nos consumia.
Como paleativo, a risada e o negligenciamento podem funcionar perfeitamente e, dependendo da força do problema, ser suficientes. E na maioria dos casos, o são.
Mas nosso antígeno estava lá, presente e emanando algo que somente nossas almas seriam capaz de sentir. Tivemos mais uma semana de paz.
Nossas piadas não eram o bastante.
VII.
Durante esses últimos dias ainda havia de surgir, ou apenas demoramos a notar, um terceiro elemento: minúsculas bolinhas de silicone.
Não vendo saída, acabamos por dar uma festa.
Bastantes convidados com seus respectivos amigos, o suficiente para desestabilizar qualquer acúmulo magnético empoçado.
Mas o que então eram gotas, de um instante ao outro se tornaram uma tormenta. Passara todo o evento sentado, ocupado em controlar o som brutal que seria responsável pelo exorcismo espacial.
Tarefa árdua, visto que todos os convidados pediam o fim da perturbação em troco de uma boa dança. Acalmei-os por pouco com algumas doses de M. Jackson (que não causou a interrupção do ritual). Acreditei estar alcançando algo.
Exauri minhas forças ao limite máximo. Acordei em prantos e saí de casa.
Voltei dois dias depois. E esse foi o fim das semanas.
VIII.
A Casa não era mais a mesma. Não apenas garrafas de bebida, bingas de cigarro e copos mal bebidos.
Dentro e fora de cada fresta, saindo pelas bordas de cada extremidade, havia tufos de cabelo.
Caixas se encontravam rasgadas pelo chão, milhares de objetos pessoais espalhados por todos os cômodos.
E rolando em meio à podridão: milhares de bolinhas de silicone coloridas.
Minhas colocatrice não estava mais lá. Não havia recados e nenhum sinal de sua presença recente. Seu armário tinha menos roupas que o normal.
Provavelmente fugira no dia seguinte. Não encontrava pensamentos em minha cabeça.
O caos tomara conta.
Sentei com Michelle - minha manequim, no sofá, e acendi o narguilé que havia ganhado na festa, de duas amigas búlgaras.
IX.
Tentara reconstituir os fatos, mas minha cabeça não andara bem nos últimos dias.
Entre as tragadas de maçã verde, olhava para os olhos inanimados de Michelle, que através dos quinze dias, haviam presenciado todos os passos que nos levariam a tal situação.
Ela era a única que poderia me esclarecer.
Nos deitamos em meio aos detritos, fios e bolinhas, e nos perdemos em carícias além-carnais.
Seu corpo duro, branco, de curvas perfeitas, delineadas; seus pequenos mamilos franceses; sua careca na qual ainda haviam grudados (imaginem) alguns escassos fios de cabelo.
Dormimos em paz. Em nosso próprio leito, Michelle me revelara seus segredos.
Não me sentia mais como um intruso. A casa era nossa.
X.
Isolara-me por tempo indeterminado em meio a meu novo lar. Não havíamos telefone, o computador havia sido destroçado, e meu celular perdido.
Me alimentava dos restos de pizza e bolos que alguém trouxera para a festa.
Michelle não precisava comer.
Perdera o contato com o mundo. Não sabia o que havia ocorrido durante o momento, somente que, agora, o caos instaurara uma nova harmonia.
Nenhum dos convidados ousara nos procurar. Não tive mais notícia alguma.
Os fios voavam e as bolinhas rolavam.
Passava os dias conhecendo, ao lado de Michelle, toda a infinidade de coisas que um dia me foram privadas, veladas dentro daquelas malditas caixas.
E em uma agradável manhã, remexendo em uma pilha de garrafas, encontrei sem muito bem compreender, um saco fechado de bolinhas, todas coloridas e, embrulhada em um velho pano de chão, uma tesoura suja de sangue com vários cabelos, de diferentes cores e tamanhos, grudados.
Nossas cabeças estavam, agora, todas vazias.
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