(( Quartinho e Pinturas ))
Desenhava como uma criança. Sobre qualquer superfície. Não se cansava de afirmar que o que fazia “é bosta!”. Sem o mínimo apego, quase como os monges que desenham na areia, ele passava o dia revezando o tempo entre a guitarra amada e as inúmeras folhas de papel com desenhos de figuras humanas, prioritariamente femininas. Muitos destes com aspecto de esboço. Com poucos traços conseguia chegar onde muitos exageram para chegar: à expressão. A chamada “bosta” do meu amigo foi, de fato, meu primeiro contato com uma obra expressiva. Não estava nos livros, nem em galerias, estava bem ali ao meu lado, jogados no chão entre bingas de cigarro e pontas de maconha. Van Gogh, Shielle, Giacometi, Flávio de Carvalho, Iberê Camargo. Não conheci nenhum. E logo ali estava meu desconhecido amigo, tão atormentado roendo o sabugo dos dedos, impregnando todas aquelas folhas com sua vida. De fato são marcas em uma folha de papel. Pra mim são muito mais. Eu vi uma vida se misturando com um ato, que por sua vez se mesclava com a obra. Que é afinal, o que resta. Como no caso de meus amigos citados acima. Não conheci nenhum, mas por suas obras permitiram que me sentisse tão próximo de todos. Meu amigo Van Gogh. Meu amigo Iberê. Desenhos e mais desenhos. Pinturas e mais desenhos. Projetos e mais desenhos. Linhas cada vez mais fluidas. E com o tempo, meu amigo, seus menos traços, ganhavam mais e mais vida... é onde pretendo chegar enquanto vivo.
Guilherme Melich (Guina)
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