(( This is sure a good verse... ))
O acaso, os três afirmam em uníssono, é o quarto integrante do Clint is Gone. Graças a um mal-entendido, Antoine Bertrand escreveu a Julie Gomel para sugerir uma Jam session de apresentação depois de encontrar uma foto no myspace dela em que uma garota tocava o violoncelo. Sim, Julie é mesmo violoncelista. Não, ela não é a garota da foto. Dito isso, sim, Fábio Nascimento e Antoine são ambos fãs de Beatles e os dois encararam uma noite fria e inóspita em frente ao renomado teatro do Olympia, em Paris, onde Paul McCartney se apresentaria na noite seguinte. A notória noite do dia 23 de outubro de 2007, data dos 21 anos de Antoine. Coincidência? Pode ter sido despretensiosamente que Fábio decidiu dar uma conferida em um dos shows da banda e, sem muita deliberação, uniu-se, na seqüência, à trupe, a essa bande à part. O que ele não sabia era que só seria apresentado pessoalmente a Julie no metrô de Paris, a caminho do primeiro show realizado entre eles. Por aí já dá para ter uma idéia do que
viria pela frente.Não demorou muito para que Fábio e Julie se dessem conta de que esse jovem rapaz do subúrbio parisiense (banlieue, bem diferente da nossa interpretação da palavra subúrbio) era um fértil compositor que vinha carregando a patente “Clint is Gone” nas costas com o violão desde sua adolescência. Antoine, de sua parte, após alguns passos em falso de início de carreira, logo se daria conta de que esse trio era a fórmula perfeita. E sabe o que mais? Eles cabem todos em um carro só, instrumentos e tudo. Facilita bastante a vida. Como na maior parte das bandas, relacionamentos, famílias e empresas, Clint is Gone também teve sua parcela de divórcios e, com esta experiência, aprendeu a apreciar as alegrias de um casamento sólido. Diferentemente do final dos westerns em que o pistoleiro solitário marcha em direção a um alaranjado por do sol, Clint is Gone é uma família a nos lembrar que em grupo sempre haverá, obviamente, indivíduos que lhe dão unidade a partir de suas contribuições compartilhadas, mas cujo talento e criatividade aqui não são facilmente destacáveis do todo. O EP“Clint is gone” é o primeiro EP homônimo do grupo. Gravado, mixado e masterizado na Beat Cave por Antoine Delecroix, o disco é uma degustação de 8 das quase duas dezenas de canções originais atualmente presentes no setlist da banda. O lançamento do EP coincide com o do site, novinho em folha, criado por Letícia Coelho Nunes, amiga, artista, goiana e entusiasta sediada em Paris e que também cuidou de toda a identidade visual da capa do EP. Suas ilustrações brincam com a foto de capa de Alfredo Brant, amigo e mineiro sediado em Paris e autor das fotos de imprensa disponíveis no site. Compartilhando a deliciosa tarefa de fotografar os três no palco, Maria Bitarello (sim, sim, outra mineira em Paris) faz a assessoria de imprensa e funciona como uma espécie de autora-fantasma encarregada de toda informação presente no site e no release. Algumas das fotos disponíveis no site também são de autoria de Vinicius Araújo, outro goiano na capital francesa que também assina o vídeo “Clint is gone to Pleshey” (streaming online no site www.clintisgone.com), um relato musical da viagem que a banda fez a Pleshey Fields (Inglaterra) em final de agosto de 2009 para sua segunda aparição na terceira edição do Squeal Fest. A montagem de 22 minutos foi lançada no dia 17 de dezembro no Vieux Léon (www.myspace.com/levieuxleon), um cantinho aconchegante e especial para todos eles. Antoine BERTRAND Metade brasileiro, metade francês, o frontman parisiense vem escrevendo canções desde os 15 anos. Hoje, aos 23, ele tem mais de 11 cadernos repletos de suas impressões agridoces sobre términos e rompimentos, indagações de uma jovem e inquieta cabecinha sobre o significado de tudo isso, e saudades, o que não é de todo evidente para um público francês, pois a palavra portuguesa associada à nostalgia não tem tradução em outras línguas. Nas letras de Antoine, ao invés de uma queixar do passado, saudade é um sentimento que nos catapulta para frente, uma espécie de melancolia otimista às vezes irônica e quase sempre eloqüente. Maduras, suas letras impressionam pelo reduzido número de primaveras vividas por ele. Tem-se a impressão de que esse trovador francês destila melodias de qualquer seqüência de acordes e sem esforço encadeia palavras em cada transição. Uma justaposição agradável aos ouvidos, estimulante aos sentidos e difícil de esquecer. Antoine por Julie and Fábio: o pentelho Julie GOMEL Algo absolutamente magnético ocorre entre essa garota e seu violoncelo. Em cena, com o vestido azul e os omini-presentes All Stars Converse, Julie Gomel faz do clássico folk, do bate-cabeça, gracejos do arco e te faz questionar se por acaso este enorme e imponente instrumento não foi acidentalmente parar em uma orquestra quando, na verdade, suas origens remontam ao acompanhamento de uma velha e boa bateria. Ou uma bateriazinha como a que Julie, para encanto e estupefação de uma platéia boquiaberta, conduz com tamanha confiança e legitimidade. Existe algo especial a respeito dessa garota do norte da França que não fica evidente à primeira vista e audição, mas antes algo que vai nos conquistando a cada vez que ouvimos sua voz aveludada e seus backing vocals impecáveis. Pode ser algo que ela colheu ao longo de seus 18 anos de estrada musical, do primeiro piano acariciado pelas mãos pequeninasao sedutor violoncelo. Ou quem sabe tenha sido uma coisa ou outra que ela aprendeu estudando musicologia em Lille (França). Tanto faz. Da maneira que for, vai ser difícil não notar seus coreografados movimentos de mão e aquela carinha de esperta, de onde um par de olhos azuis fitam intensamente. Julie por Fábio and Antoine: a mãe Fábio NASCIMENTO Quando se tem dois músicos franceses em uma banda, não é nenhum quebra-cabeças perceber que o cara mais barbudo e cabeludo, rodeado de pequenos badulaques melódicos especialmente concebidos para que os olhares voltem-se para eles quando ressoados, é o brasileiro. Se ainda assim restar dúvida, não vai ter erro quando Fábio Nascimento deixar escorrer um enorme sorriso de seus lábios e não conseguir conter o movimento do corpo e das mãos de acompanhar a levada da música, contagiando também a nós. Se não ficar claro se ele é o percussionista, o baterista, o flautista ou o portador dos badulaques, pense nele apenas como uma pessoa especial que está ali para gerar sorrisos. Com sorte, o fotógrafo, documentarista, músico e perfeccionista ainda vai te mostrar que a beleza está nos detalhes, que um olhar vale mais que mil palavras e quem sabe você não volta para casa com a súbita e inexplicável sensação de que vai ficar tudo bem. Fábio por Julie and Antoine: o sábio EP “Clint is Gone”: crítica (por Maria Bitarello) “This is a sure good verse...” (“Esse verso é dos bons...”), Antoine vai cantando... “Clint is Gone” é irresistivelmente simples. Não há como contornar a situação. Ou é bom, ou não é. Não tem muito como mascarar. Baseado nas respostas que eles arrancam do público nos shows, “A song to sing along” vai colar. Não se preocupe se estiver pensando que é o único que não consegue tirar aquele refrão assobiado da cabeça. Não é. Ele bate mesmo. Faz o povo bater palminhas e cantarolar. Funciona mesmo. Em seguida, muda a faixa e “Not alone, on my own” entra com um quê de REM. É uma canção que eles vêm tocando há algum tempo e na qual as principais influências de Antoine escapam em notas de gaita. O violoncelo dá corpo a uma seqüência de acordes simples, como são a maioria das composições, todas escritas por Antoine e arranjadas pelos três. “A gente não força nada, não é algo que dá pra ser feito de forma mecânica. É realmente por prazer”, Antoine revela em um dos ditos ensaios. Na realidade, quando os três se reúnem no estúdio na casa de Julie (a Beat Cave), uma tediosa e burocrática repetição de músicas ou trechos delas não é o que ocorre. “Nossos ensaios fluem naturalmente, como nosso estilo de composição”, explica Julie, dizendo a verdade. Quando Antoine chega com punhados de material novo escritos sem esforço, o violoncelo faz deles gente grande e os detalhes acrescentados pelos numerosos instrumentos a encargo de Fábio caminham de mãos dadas com a letra, a melodia e o ritmo. Tudo se encaixa de cara, como se aquela música que eles acabam de conhecer fosse uma velha conhecida de cada um dos três e que só agora era formalmente apresentada a eles enquanto grupo. O prazer é enorme. É o caso de “Chico Buarque”, escrita depois que Antoine conheceu o músico em uma partida de futebol em Paris. Fã do compositor brasileiro, Antoine encontrou as respostas que buscava no ritmo nativo e natural de Fábio e no baixo sincopado de Julie (incapaz de entender uma palavra que seja em português, mas ainda assim capaz de cantar a música inteirinha só pela semelhança fonética). Cativante e bem arranjada, expõe mais um pouco das origens étnicas e musicais de Antoine e libera seu sotaque carioca de quem, no entanto, nunca viveu no Rio de Janeiro. “Molly” segue a onda brasileira começando com uma contagem em português até quatro para, em seguida, nos imergir em uma melodia agridoce em que Antoine esbraveja com doçura um “some da minha vida” a uma anônima Molly – conduzido com um surpreendente detalhe de banjo tocado por Fábio, um instrumento que não vemos com eles em cena. Antoine admite se aproveitar do mote dos términos que ele, todavia, ultrapassa e desenvolve para além da raiva e do ressentimento. No final, viram contemplações e especulações sobre a vida, sobre as pessoas, sobre a busca pela identidade, a digestão de experiências vividas e também de sentimentos de pertencimento, de partidas, da descoberta do próprio caminho, dos erros que cometemos e da responsabilidade diante de nossas próprias vidas. Isto é, a juventude... Faixa seguinte. Com uma formação em piano, Fábio abdicou do longo instrumento no palco após a adoção oficial da versão compacta do Clint is Gone. Mesmo assim, em “So blue” podemos ouvir os arranjos redondos compostos na escaleta, este instrumento tão especial quanto menosprezado e comumente associado a crianças, dado o tamanho e as cores vivas – uma associação que a banda não descartaria, já que seu público é formado tanto por crianças e adolescentes quanto por casais perturbados, pais e avós – , uma espécie de acordeom de sopro ou gaita de foles percussiva. Se cada canção tem sua própria ambientação, como sugere Antoine, então talvez “So blue” venha de alguma parte mais ao Norte... “In the hills” nos oferece um pouco do que Julie pode fazer com sua voz doce e bem treinada juntamente com sua firme pegada de baqueta enquanto Fábio passa para o violoncelo tocado ao modo contrabaixo (o troca-troca é uma manobra recorrente para os três em cena) e Antoine entra com sua voz perfeitamente afinada à de Julie. Um hit. O que também pode ser dito de “Exotic trip”, tão irresistivelmente sedutora. Antoine saca o ukulelê e volta para o vocal principal, Fábio empunha a flauta e quem assiste se pega, de repente, balançando de um lado para o outro e com vontade de acompanhar o movimento também com os braços, erguidos acima das cabeças ritmadas. O EP fecha com “Get a moon”, onde o violoncelo carregado de dramaticidade replica o lamento de Antoine. Uma tática já bastante utilizada, mas nem por isso menos sagaz, de terminar o álbum dando um gostinho do que pode estar por vir. Se depender da fertilidade criativa de Antoine, da determinação e do profissionalismo de Julie e da capacidade arranjadora de Fábio com diferentes instrumentos, o que está por vir é o mínimo que se pode esperar deles.
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